sexta-feira, 27 de julho de 2012

Violência e medo nas escolas


Comportamentos agressivos de adolescentes contra professores e colegas podem gerar traumas psicológicos nas vítimas.

ADRIANA FÉLIX
KAREM MOGNON

Medo e humilhação não fazem parte da grade escolar, mas estão cada vez mais presentes na vida de milhares de estudantes. Aproximadamente 60% dos jovens brasileiros entre 14 e 19 anos foram alvo de algum tipo de violência nas escolas nos últimos anos, segundo dados da Unesco. Mas os alunos não são as únicas vítimas: uma pesquisa da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), divulgada em fevereiro deste ano, revelou que 87% dos profissionais da educação já sofreram alguma agressão ou sabem de alguma ocorrência dentro da escola. Cerca de 29% dos professores se afastaram temporariamente do trabalho ou abandonaram a profissão motivados pela violência dos alunos.

A professora E. C. leciona em uma escola pública de São Caetano há seis anos e diz que a agressividade dos alunos se tornou constante. “Falta educação, que muitas vezes eles não recebem em casa”. A docente afirma que é difícil atribuir o mau comportamento a um aspecto específico. “Às vezes são problemas familiares, o uso de drogas, a fácil irritabilidade, entre outros que não somos capazes de identificar”.

E. C. já assistiu a desavenças entre estudantes dentro da sala de aula. “As brigas estão sempre presentes entre eles, muitas vezes sem um motivo certo ou importante. Já ocorreu em minha sala, quando dois alunos brincavam de ofender a mãe um do outro. De repente, um deles se irritou e partiu para a agressão física”, revela a professora. Ela acredita que a solução para situações como essa seja uma mudança nas regras dentro das escolas. “Uma direção sempre firme em suas atitudes, e algumas mudanças no regime. Mudanças que nos dêem uma maior abertura em punições, pois nada acontece com os alunos. Sendo assim, eles continuam a agir da mesma maneira, causando transtornos a si mesmos e ao docente”, explica E.C.

“Existe falta de limites na educação dos filhos, no que diz respeito às classes média e alta. Nas classes menos favorecidas, temos o descaso da nossa política social”, diz a psicóloga Rosana Poiani, de São Bernardo. A especialista acredita que as mudanças nos relacionamentos entre pais e filhos são responsáveis pela má-educação dos jovens. “Antigamente os pais eram tradicionalistas, autoritários ao extremo, mas educavam e não se arrependiam de nada do que faziam. Com o passar dos anos, o diálogo e as negociações passaram a fazer parte do processo educativo. Mas, com tudo isso, veio também o ‘psicologismo da educação’. A mídia, em geral, tratou de desinformar os pais, colocando que tudo traumatiza, que não pode isso ou não pode aquilo. Enfim, a educação se perdeu”.

Dentro desse raciocínio, os pais têm parte da culpa no desrespeito aos professores e colegas. “Eles já não sabem o que é certo ou errado e permitem atitudes sem saber se é adequado ou não. Ou, o que é pior, são permissivos demais por acharem que os filhos tem direitos, como por exemplo, responder ao professor que quem paga seu salário é ele. De onde ouviram isso se não dos pais?”, questiona a psicóloga.

Bullying - Segundo Rosana, outro fator muito importante são os preconceitos desenvolvidos dentro dos ambientes familiares. “O ser humano ainda não aprendeu a conviver com as diferenças. Encontramos a falta de valores morais, afetivos e de caráter em qualquer tipo de classe social”.

A universitária Marcela de Oliveira Seme, 24, moradora de Mauá, foi testemunha da perseguição de colegas contra um garoto na época em que cursava a 8ª série do ensino fundamental, em 1996. “Ele era um pouco ‘bobão’ e ingênuo, e todos zoavam com ele. Faziam brincadeiras de mau-gosto, como jogá-lo dentro do latão de lixo”. Marcela ainda se recorda de uma ocasião em especial: “Uma menina disse para esse garoto que iria ensiná-lo a beijar, mas antes ele teria que treinar com um poste. Ele aceitou e beijou o poste, mas não a menina”.

Para a estudante, o garoto não tinha percepção do que faziam com ele. “Ele mesmo não encarava isso como uma coisa ‘ruim’, porque continuava convivendo com os outros alunos normalmente”, afirma. Marcela soube que o ex-colega entrou numa faculdade e continua sendo alvo de chacotas. “Até hoje zoam com ele. Fizeram uma comunidade no orkut (site de relacionamentos) para tirar sarro”, diz.

O ex-colega de Marcela é uma vítima do chamado bullying. O termo passou a ser usado depois da publicação de uma pesquisa sobre vítimas de violência escolar realizada pelo professor Dan Olweus da Universidade de Bergen, na Noruega, nos anos 1970. A palavra bullying é inglesa, sem tradução para o português, e está relacionada a termos como: zoar, apelidar com finalidade pejorativa, humilhar, perseguir, machucar, ferir, ofender. “Enfim, é tudo que devemos aprender a não fazer com ninguém e para ninguém”, afirma Rosana Poiani. A psicóloga aponta as características e o perfil de quem pratica o bullying. “Com certeza uma pessoa perversa, com uma personalidade má e uma visão deturpada do convívio com os outros, assim como com sua afetividade”, esclarece.

O bullying pode provocar marcas profundas para quem é vítima. A auxiliar administrativa D.M., 19, de São Bernardo, revela que faz terapia para superar problemas psicológicos. “Quando eu tinha 14 anos, minhas colegas criticavam muito minhas roupas e meu cabelo. Eu era chamada de ‘Betty, a Feia’ (numa referência à novela de mesmo nome, na qual a personagem-título era humilhada por sua aparência) e isso me machucava demais”. D.M. conta que ainda tem muitos problemas de auto-estima em decorrência do bullying. “Na época, eu me sentia um lixo e tinha vontade de morrer. Até hoje tenho depressão e vivo obcecada com minha aparência”.

“É fundamental que qualquer pessoa que viva sob coerção de qualquer espécie procure um tratamento psicológico, pois toda essa situação constitui uma angústia muito grande e abala a auto-estima. Muitas vezes, a vítima se isola e sente medo, e temos casos que levam até ao suicídio”, afirma a psicóloga Rosana Poiani.

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