sexta-feira, 27 de julho de 2012

O perigo mora ao lado

Dados do PAVAS (Programa de Atenção à Violência e Abuso Sexual) de São Bernardo revelam que 47% dos casos ocorrem com adolescentes entre 14 e 20 anos. Muitas vezes, o agressor está dentro de casa.

ADRIANA FELIX
KAREM MOGNON

Sofrimento das vítimas e silêncio das famílias. Duas reações que geralmente estão relacionadas ao abuso sexual de menores. Em São Bernardo, adolescentes entre 14 e 20 anos representam 47% das vítimas do município, mas crianças também sofrem com a violência. Em 37% dos casos, não são registrados boletins de ocorrência. O mais grave é que, muitas vezes, a agressão ocorre dentro do lugar que deveria oferecer mais segurança: o próprio lar.

Várias entidades auxiliam as vítimas na região do ABC. Segundo Kelly Rodrigues Melatti, assistente de coordenação técnica do Crami (Centro Regional de Atenção aos Maus-tratos na Infância) do ABCD, o local atende menores que sofreram abuso familiar. “O Crami é uma ONG (Organização não-governamental) que atua nos municípios de Santo André, São Bernardo e Diadema, e oferece atendimento psico-social a crianças, adolescentes e famílias que vivenciam situações de violência doméstica. Conta com uma equipe multidisciplinar, que busca compreender as diversas facetas da situação e oferecer ações de proteção, em intercâmbio com outros órgãos, além de escuta profissional, capaz de proporcionar possibilidades de entendimento das experiências de violência vividas”.

Para a assistente do Crami, o abuso sexual traz várias conseqüências para as vítimas e necessita de tratamento. “Cada pessoa reage à violência de uma forma particular, levando em consideração diversos aspectos. As conseqüências emocionais mais observadas em adolescentes são baixa auto-estima, indícios de depressão, distorção da auto-imagem, dificuldades em estabelecer vínculos afetivos e de confiança. O atendimento psicológico é importante, pois pode promover reflexões e trabalhar como possíveis traumas que afetem a vida dos envolvidos”.

“O abuso sexual é uma forma grave de violência, e os efeitos psicológicos mais freqüentes são: baixa capacidade de confiança em outras pessoas, isolamento, distúrbios do sono, sintomas psicossomáticos ou depressão, explosões de raiva em situações diversas, queda no rendimento escolar e problemas de comportamento, surgimento de comportamentos considerados promíscuos, entre outros. Isolados, os sintomas alertam que algo não está bem com pessoa, mas, quando somados, podem evidenciar que ela está sendo vítima de algum tipo de violência sexual”, afirma a psicóloga Ana Cristina Caldeira, é especialista no tema.

“As medidas de prevenção são importantes, mas a luta é da sociedade civil, das vítimas, das famílias, do poder público, da saúde, do Ministério Público e do Judiciário”, declarou Vera Lucia Acayaba Toledo, promotora pública da Infância e da Juventude de São Bernardo, durante um seminário que discutiu o tema na cidade, uma vez que o dia 18 de maio foi escolhido como Dia Nacional de Combate e Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Atendimento às vítimas - No Crami, todas as pessoas que estejam de algum modo ligadas às situações de abuso são orientadas, inclusive o autor do ato violento. “Entendemos que é necessário que todos reflitam sobre suas práticas, a fim de construir laços afetivos mais sólidos e sem a presença da violência”, afirma Kelly Melatti. “Devem receber atenção de forma multidisciplinar, pois se trata de uma situação complexa e com diversas ramificações. O importante é que a pessoa que sofreu o abuso e todos os envolvidos tenham um espaço de escuta profissional, para que possam refletir sobre suas vivências e trabalhá-las em seu cotidiano”.

Já Carolina do Rocio Klomfahs, diretora técnica da Fundação Criança, diz que o agressor também deve receber tratamento: “É importante tratar não apenas a criança ou adolescente, mas também a família e o próprio agressor, depois que este receber a punição adequada. Não adianta a vítima receber o tratamento e voltar a conviver com o abusador se este também não for orientado”. A entidade, juntamente com o Pavas (Programa de Atenção à Violência e Abuso Sexual) e o Crami forma uma rede de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de abuso e exploração sexual. Assim como o Crami, a Fundação Criança também atende os casos de abuso sexual que ocorrem dentro da família. A diretora da entidade conta que, em 2004, foi realizada uma pesquisa de rua sobre os perfis de menores que foram abusados e dos agressores. Os resultados revelaram que cerca de 81% das vítimas são meninas, 23% delas com idades entre 10 e 12 anos, e outros 24% entre 13 e 15 anos. Em 22% dos casos, o abusador é o próprio pai, enquanto o padrasto é responsável por 17% das ocorrências. Na maioria dos casos (29%), o agressor encontra-se na faixa etária de 19 a 30 anos.

Entre as diversas histórias que já acompanhou, Carolina do Rocio cita a de duas irmãs, uma de 10 anos, com leve deficiência mental, e a outra de apenas oito anos: “O pai ‘comercializava’ as filhas para pagar dívidas com alguns comerciantes da vizinhança. A mãe das meninas tinha deficiência auditiva, e o marido era alcoólatra, formando o quadro de uma família com transtornos mentais. O pai foi denunciado por vizinhos e perdeu a guarda das crianças, que foram encaminhadas para tratamento. Fizemos um trabalho no sentido de tentar recuperar a infância delas. Os pais não estão presos, mas ainda serão julgados. A mãe sofre muito e de certa forma também pode ser considerada uma vítima, pois devido à sua deficiência, não conseguia se rebelar contra o marido”.

De acordo com a diretora da Fundação Criança, existem dois tipos de abuso sexual. “O crônico é caracterizado pelo silêncio da família, e só é descoberto quando a criança é mais velha ou quando explode um conflito familiar. Muitas vezes, a agressão familiar só é revelada ao longo de um tratamento psicológico. Em cerca de metade dos casos, é mais fácil ser descoberto por outras pessoas do que pela mãe, que não percebe o que ocorre dentro da própria família. Só quando a criança pede socorro”. No abuso agudo, geralmente a criança ou adolescente apresenta ferimentos ou machucados, e é socorrida pelo Caism (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher), que atende vítimas de violência extra-familiares, ou pelo Crami. As vítimas fazem o exame de corpo delito e depois são encaminhadas para tratamento psico-social gratuito, que é acompanhado pela Fundação Criança.

A psicóloga Ana Cristina Caldeira ressalta que é necessário garantir condições de segurança e proteção aos menores, para que não fiquem expostos ao risco de novas ocorrências. “É importante oferecer um ambiente onde a vítima se sinta respeitada e protegida de ameaças, críticas e julgamentos alheios. Ao mesmo tempo, ela deve fazer um bom acompanhamento médico, para verificar as condições de saúde, e ter encaminhamento para tratamento psicológico. Este último contribuirá para que se desenvolva integralmente, promovendo condições para a superação de conseqüências negativas causadas pela violência a que foi exposta”.

Silêncio das Famílias - Nos casos de violência sexual intra-familiar, a vítima pode apresentar uma variedade de sentimentos. Além do medo do agressor e da sensação de culpa e vergonha, existe o receio de que o mesmo receba uma punição, ou de que ninguém acredite nela. “As crianças e adolescentes dificilmente vão em busca de uma denúncia sozinhas. Para isso, necessitam de um adulto que possa oferecer proteção. Mas, por diversos motivos, a vítima pode não contar o que está acontecendo. Ou ainda, ao notar a descrença do adulto, manifesta o fenômeno da retratação e diz que mentiu, ao se perceber como causadora de um conflito na família”, diz Kelly Melatti.

Muitas ocorrências não são denunciadas. “Quando o agressor é o provedor da casa, muitas mães não denunciam porque vão perder a fonte de renda. Em outros, a criança não consegue entender que é vítima de abuso, por ser muito pequena. Ou ainda, há o medo de represálias por parte da pessoa que cometeu a violência”, diz Ana Carolina do Rocio. “São muitos os fatores, desde a falta de recursos e informações sobre as formas e locais adequados para buscar ajuda, até o preconceito e discriminação da sociedade, inclusive da própria família”, explica a psicóloga Ana Cristina Caldeira, que cita ainda outras razões:

“Ameaças, feitas pelo agressor contra a própria vítima ou pessoas que ela gosta, como a mãe ou um irmão mais novo, que ela imagina ‘proteger’ com o seu ‘sacrifício’. Pode haver também uma relação de ambigüidade, onde sedução e violência se misturam, causando culpa, vergonha e ‘destruição’ da auto-imagem da vítima. Ela começa a acreditar que deve suportar o sofrimento ao qual está submetida. E, em muitos casos, os outros integrantes da família também tendem a não acreditar, ou até mesmo a responsabilizá-la pelo abuso”.

Kelly Melatti alerta sobre a importância de levar os casos ao conhecimento das autoridades: “Observamos a existência do complô do silêncio, em que o abuso torna-se um ‘segredo familiar’. É necessário que um terceiro desempenhe o papel de denunciar, de modo que a situação seja explicitada e interditada. Se houver necessidade, a saúde da criança deve ter prioridade absoluta, e a mesma deve ser encaminhada a um hospital. No mais, a denúncia é o primeiro passo, além de ser obrigatória por lei, de acordo com o Artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Todas as pessoas que possuem contato com a criança e que suspeitam ou tem confirmada a situação, devem procurar os órgãos competentes, como conselhos tutelares, delegacias, hospitais, etc”.

A assistente do CRAMI acredita que algumas vítimas possam voltar a ter uma vida normal. “Cada pessoa tem um modo particular de entender as experiências vividas. No entanto, quando há a proteção da criança ou adolescente e a família recebe uma atenção especializada para refletir sobre suas práticas e construir vínculos mais fortalecidos, a pessoa poderá enxergar para além daquela situação”. A psicóloga Ana Cristina Caldeira concorda: “É possível superar o trauma e, a partir daí, retomar os caminhos que recuperam o amor próprio, elevam a qualidade de vida e proporcionam condições de estabelecer relacionamentos saudáveis. Muitas vezes, nos surpreendemos com a determinação que as pessoas demonstram para se recuperar das marcas deixadas pela vivência de uma situação traumática”.

Serviço: Onde denunciar
Crami São Bernardo - 4123-1751. Conselhos Tutelares de São Bernardo - 4122-3306 e 4122-1417. Guarda Civil Municipal - 4121-1033. Delegacia de Defesa da Mulher de São Bernardo - 4368-2032 e 4368-9980. Hospital Municipal Universitário (HMU) - 4365-1480. Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) - 4332-9111. Atendimento 24 horas: 0800 7737-888 (municipal) e 100 (disque-denúncia nacional)

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