sexta-feira, 27 de julho de 2012

Obesidade: 30% das crianças e adolescentes brasileiros estão acima do peso

Além de prejudicar a saúde, a obesidade pode provocar graves problemas psicológicos, como baixa auto-estima e isolamento.

ADRIANA FELIX
e KAREM MOGNON

Vergonha do próprio corpo, baixa auto-estima, aumento do risco de doenças cardiovasculares. Estes são apenas alguns dos problemas relacionados à obesidade na adolescência. De acordo com a Abeso (Associação Brasileira de Estudos sobre a Obesidade e Síndrome Metabólica), 30% das crianças e adolescentes brasileiros são obesos. Entre as principais causas, estão o sedentarismo e os maus hábitos alimentares.

Para a psicóloga Liliana Lopes de Santo André, as cobranças sociais e imposições da vida moderna expõem o adolescente obeso a uma ampla gama de conflitos psicológicos. “O impacto psicológico que a obesidade causa na adolescência pode trazer perturbações que afetarão estes indivíduos por um longo período de suas vidas”, analisa.

Um desses impactos, por exemplo, é a baixa auto-estima, que pode ter conseqüências graves. “A baixa auto-estima pode provocar dificuldades em cultivar ou fazer amizades, desânimo para sair, problemas escolares e falta de confiança em si. Pode gerar ainda um sentimento de que ninguém gosta ou que não poderá gostar dele (a), e por conta disto, dificuldade para namorar ou paquerar”, afirma a também psicóloga de São Caetano, Paula Biscaro de Oliveira.

Segundo ela, os pais devem ficar atentos e verificar se o filho não está se isolando. “É preciso calma e diálogo nessa hora. Ficar só rotulando ou apontando os defeitos e dificuldades só irá reforçar a situação. Se o adolescente estiver apresentando sintomas de depressão ou engordando demais, é obrigação dos pais levarem o filho para fazer tratamento com um profissional adequado”, alerta.

O estudante B. S., 16, morador de São Caetano, não revela o próprio peso por vergonha, mas admite sofrer discriminação por ser obeso. “Meus colegas de escola tiram sarro de mim constantemente, me chamando de ‘Jô (Soares)’, ‘Faustão’, ‘Balão mágico’. Além disso, as pessoas ficam olhando para mim na rua”.

Apesar de já ter problemas de saúde como colesterol alto, início de diabetes, triglicérides alterada, falta de ar e dificuldades de locomoção, o estudante diz que não faz regime. “No café da manhã, como três pãezinhos e dois copos de leite com café. No almoço, um prato cheio de arroz, feijão e alguma carne, que às vezes repito. No lanche da tarde, costumo comer salgados, porque minha mãe faz. No jantar, massas e salgados. Só penso em comida e em assistir televisão”, confessa.

B.S. não gosta de salada e consome muito refrigerante, mesmo sabendo que precisa cuidar melhor da saúde. “Sei que preciso mudar os hábitos de alimentação, fechar a boca e fazer uma dieta. Também devo praticar exercícios, e, principalmente, parar de fumar”.

Mudança de hábito - A nutricionista Edna Sampaio de São Bernardo define a alimentação dos adolescentes brasileiros como ‘ruim’. “Há muito consumo de gordura trans e saturada, o que pode provocar doenças cardiovasculares e inflamatórias. Por outro lado, a ingestão de poucos vegetais e frutas acarreta um baixo consumo de fibras”, diz.

Márcia Soares, também nutricionista, concorda: “A alimentação está cada vez mais precária. Crianças e adolescentes querem alimentos de fácil preparo, moles, para não terem que mastigar muito. Infelizmente, os pais não têm mais tempo para se dedicar aos filhos. Nos últimos dez anos, tudo isso ocasionou o excesso de alimentação fast food, uso de alimentos industrializados e conseqüente acúmulo de gorduras, sal e carboidratos”. Ela sugere a mudança dos hábitos alimentares das famílias para garantir a melhoria da saúde de crianças e adolescentes.

“Deve-se cortar o consumo de gorduras trans e hidrogenada (usada em sorvetes industrializados cremosos, biscoitos e pastelarias, entre outros). Também é preciso evitar a ingestão freqüente de gordura saturada, assim como o consumo de açúcares simples, como o encontrado no mel, melado, doces, balas e guloseimas, e dar preferência aos carboidratos complexos, como pães, raízes e arroz”, recomenda Edna Sampaio. Outra dica da nutricionista é ingerir no mínimo cinco porções de frutas e vegetais por dia e dar preferência a alimentos integrais.

Em alguns casos, a cirurgia para redução de estômago, inclusive para adolescentes, é uma alternativa para o tratamento da obesidade. Entretanto, o acompanhamento psicológico é indispensável. “Já atendi pessoas que optaram pela cirurgia de redução do estômago, e a partir disso, mudaram suas vidas para muito melhor. Puderam ser mais autoconfiantes e melhorar a auto-estima. Mas essas pessoas passaram por processo terapêutico comigo por alguns meses antes da cirurgia, ou no mínimo fizeram sessões para terem o laudo psicológico antes de realizar a cirurgia. Sempre digo aos clientes que eles vão operar o estômago, e não a cabeça”, explica a psicóloga Paula Biscaro.

Já Liliana Lopes destaca a importância de seguir um tratamento psicológico associado à atividade física e acompanhamento nutricional. “A união de todos esses meios é bastante eficaz e pode reduzir ou eliminar a obesidade e, consequentemente, os conflitos psicológicos causados por ela”, afirma.

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