segunda-feira, 30 de julho de 2012

Consequências da TPM

Foto: Nicola Albertini via photopin cc
A TPM não atinge apenas as mulheres, mas também seus parceiros, familiares e até colegas de trabalho.

ADRIANA FÉLIX
KAREM MOGNON

Todo mês é a mesma coisa: cólicas, dor de cabeça, irritação e tristeza sem motivo aparente. Sintomas como esses caracterizam a temida TPM (Tensão Pré-Menstrual), que afeta oito entre dez mulheres brasileiras, de acordo com uma pesquisa recente realizada pela Unicamp (Universidade de Campinas). Outra conclusão foi a de que o Brasil pode ser considerado o país da TPM, se comparado à média mundial. “Alguns estudos já apontavam que as brasileiras sofrem mais de TPM do que as mulheres européias ou americanas, mas o maior diferencial da pesquisa realizada pela Unicamp foi a de ter envolvido as cinco regiões do país”, afirma a psicóloga e professora da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), Maria Regina Domingues de Azevedo, de Santo André.

“A diferença do percentual encontrado neste trabalho pode estar relacionada à metodologia utilizada na pesquisa, ou ao fato das brasileiras se mostrarem sensíveis, se queixando mais. Ou ainda, a influencia de fatores ambientais e hábitos de vida que favorecem a presença da TPM”, diz Maria Regina Azevedo, que é especialista em Sexualidade Humana. Segundo ela, características peculiares à cultura, herança genética, hábitos, estilo de vida, alimentação e a influencia da mídia são fatores que possivelmente repercutem na discrepância apontada. Dessa forma, adverte: “o resultado apresentado não deve ser considerado alarmante, pois trabalhos científicos publicados em diferentes países mostram uma variação de 5% a 97% de incidência de SPM em mulheres na faixa etária estudada”. A pesquisa foi realizada com mulheres com idade acima de 18 anos.

“Os sintomas de maior prevalência são compatíveis com os verificados no estudo da Unicamp, e sua intensidade pode ser classificada em três níveis: leve, moderado e intenso”, afirma a psicóloga. Os mais comuns são: fadiga, dor de cabeça, inchaço, cólicas, dor nos seios e alteração no apetite, com aumento do desejo por doces. Sentimentos como irritabilidade, depressão, ansiedade, tensão, tristeza repentina, choro aparentemente sem motivo, raiva, agressividade e baixa auto-estima também são freqüentes. Para que o diagnóstico seja confirmado, a especialista da FMABC ressalta que a paciente deve apresentar cinco sintomas, sendo um deles obrigatoriamente emocional, em pelo menos sete ciclos dos últimos 12 meses, ou por três ciclos consecutivos, segundo alguns pesquisadores em estudos publicados.

A professora, A.A.P., 36, de São Caetano, sofre com o problema há muito tempo e se identifica com várias características descritas. “A TPM anuncia sua chegada com alterações algumas vezes sutis e outras mais marcantes, como a mudança de humor, maior sensibilidade e irritabilidade. Coisas triviais me levam a rompantes de raiva e choro, como se a vida fosse tomada por cores berrantes e não existisse mais meio termo. Com o tempo, aprende-se a percebê-la e a temperar essas situações com bom-senso”. Devido à TPM, A.A. P. conta que já passou por vários acontecimentos inusitados: “Uma crise de choro por algo que ninguém entendeu, durante um filme de comédia. Ou então, uma explosão de raiva por alguém ter esquecido um detalhe que talvez nem fosse assim tão importante naquele momento”.

Contudo, ela se recorda com mais atenção e preocupação de um fato que poderia ter tomado um rumo diferente, levando em consideração o alto índice de violência no trânsito. “Um motorista ralou a lateral traseira do meu carro ao tentar manobrar na vaga onde estava estacionado. Ao perceber a barbeiragem, tentou fugir. Imediatamente eu dei ré, trancando sua passagem. Saí do carro e exigi seus documentos. Quando este tentou mais uma vez manobrar para fugir, praticamente o desafiei a descer e se portar feito homem. Após esse incidente, tento me lembrar de respirar pausadamente antes de qualquer coisa, mas nem sempre isso é possível. Para mim, naquele momento de TPM, parecia a situação mais racional”, afirma a professora.

A TPM não atinge apenas as mulheres, mas também seus parceiros, familiares e até colegas de trabalho. “A orientação é imprescindível, afinal não é fácil conviver com alguém que todo mês pode ter uma crise de choro ou uma explosão de raiva”, diz Maria Regina de Azevedo. O vendedor R.R., 28, morador de Diadema, já sofreu muito com as crises de TPM da namorada. “Uma vez, ela me viu conversando com uma amiga e ficou louca de ciúme. Xingou a menina e fez o maior barraco no meio da rua. Chegou a dizer que estava tudo acabado entre nós. Algumas horas depois, mais calma, me ligou e pediu desculpas pela atitude, dizendo que era culpa da TPM”, revela R.R.
Como prevenir - De acordo com a psicóloga Maria Regina de Azevedo, apesar da alta incidência de TPM, do desconforto físico, das oscilações de humor, do descontrole emocional e das conseqüências que repercutem no contexto sócio-familiar-profissional, um número significativo de mulheres não procura ajuda especializada. É o caso de A.P.P., que ao ser questionada sobre uma possível ajuda médica, se mostra cética. “Não acredito em intervenções psicoativas para esses casos”, diz.

A analista de sistemas L.R., 32, de Santo André, já tentou fazer tratamento com remédio fitoterápico, mas não adiantou. “Era à base de semente de prímula. No primeiro mês achei que deu um bom resultado, só depois não surtiu mais efeito”. A analista sofre com fortes dores na cabeça e nos seios, além de ter mais vontade de comer doces, especialmente chocolates. Mas o pior sintoma é a irritabilidade, “normalmente, brigo mais nessa época. Qualquer coisa me tira do sério, e às vezes até choro. Minha mãe e meu marido já reclamaram do meu comportamento, porque acham que eu fico muito irritada e brigando por motivos banais”.

Entretanto, L.R. não tem a menor paciência com a TPM de outras pessoas. “Tive uma colega de trabalho que ficava mal-humorada e respondia de um jeito grosseiro quando alguém fazia qualquer pergunta. Isso me irritava bastante, porque além de ser muito estresse por nada, ninguém tinha culpa da TPM dela”, diz.

A professora da FMABC acredita que muitos profissionais ainda não dão a devida atenção ao problema, deixando de orientar e tratar as pacientes com o cuidado necessário. “Procurar ajuda de profissionais especializados que reconheçam verdadeiramente a TPM é fundamental, pois além de ser decorrente de diferentes fatores, cada mulher reage de uma forma. A orientação e o tratamento que foram excelentes para uma determinada paciente não necessariamente serão eficazes para outra. E deve-se lembrar sempre que existem vários tratamentos para minimizar os sintomas que tanto afligem a mulher”, ressalta.
Não se pode afirmar que a TPM seja decorrente de uma única causa, mas é possível preveni-la. “Como é provocada por vários fatores, a solução mais indicada seria a associação de condutas, tais como: mudança nos hábitos alimentares, prática de atividade física sistemática e redução de fatores estressantes”, diz a psicóloga.

Em relação à alimentação, a especialista recomenda evitar alimentos gordurosos e os que contêm alto teor de sódio, como frios, embutidos e carnes processadas, frituras, café, refrigerante e bebida alcoólica. Em contrapartida, sugere o aumento da ingestão de verduras, frutas e legumes, carnes magras cozidas, assadas ou grelhadas. Outro conselho é consumir oleaginosas, como castanhas, nozes e avelãs, em pequenas porções, assim como tomar bastante líquido (água, chá e sucos naturais). A soja e seus derivados também são bem vindos na dieta para combater a TPM.


sábado, 28 de julho de 2012

Internet também pode viciar


Uso compulsivo do computador pode prejudicar trabalho e vida social, afirma psiquiatra da FMABC.

KAREM MOGNON

A internet é uma tecnologia cada vez mais presente na vida das pessoas. De acordo com o Ibope/Net Rating, o acesso à web no Brasil cresceu 47% em um ano, totalizando 20,1 milhões de usuários em setembro de 2007. Entretanto, o uso excessivo da internet pode se tornar uma compulsão.

Ainda não há um estudo populacional específico sobre o vício em internet. “É considerado por alguns autores um subtipo do TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Se consideramos dessa forma, um estudo realizado em São Paulo encontrou 3,1% de prevalência entre a população”, diz a psiquiatra Cintia de Azevedo Marques Périco, responsável pela Clínica Psiquiátrica do Hospital Estadual Mário Covas, de Santo André.

Segundo a especialista, que também é professora de psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC, a compulsão por internet é avaliada por alguns como uma dependência (internet addiction). “O uso é considerado inapropriado quando atrapalha o cotidiano. Por exemplo, aquele indivíduo que passa 48 horas na frente do computador em buscas incessantes, sem dormir, sem comer, que quase não consegue parar para ir ao banheiro”. Em casos muito graves, o tratamento recomendado é a internação. “A internação psiquiátrica deve acontecer quando existir risco para o paciente ou para os outros. Por exemplo, quando o indivíduo não consegue deixar de visitar sites de leilão, prejudicando seu trabalho e vida social”, explica Cintia.

A estudante M.C., 18, costuma ficar entre sete e oito horas por dia na frente do computador, mas não considera isso um vício. “Acho normal. Gosto de entrar no orkut e teclar no msn (programa de mensagens instantâneas). Mas também visito outros sites, além de blogs e fotologs de alguns amigos”. M.C. já teve alguns problemas familiares devido ao hábito. “Meu pai reclama muito da conta de luz, e minha mãe se irrita quando fico acordada até de madrugada teclando com meus amigos. Teve uma vez que meu pai me proibiu de usar durante uma semana por causa da conta de luz, que veio muito alta. Também brigo direto com meu irmão porque ele também quer usar e eu não aceito sair na hora que ele exige”.

Ela afirma que já deixou de sair com amigos para ficar teclando. “Também perco muito tempo no msn e, com isso, deixo de estudar para as provas da escola e para o vestibular”. Mesmo assim, não consegue sair da internet. “Já tentei, mas não consigo ficar na internet menos do que quatro horas por dia. Se passar um dia sem olhar meus e-mails ou orkut, já fico estressada”, admite M.C.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Violência e medo nas escolas


Comportamentos agressivos de adolescentes contra professores e colegas podem gerar traumas psicológicos nas vítimas.

ADRIANA FÉLIX
KAREM MOGNON

Medo e humilhação não fazem parte da grade escolar, mas estão cada vez mais presentes na vida de milhares de estudantes. Aproximadamente 60% dos jovens brasileiros entre 14 e 19 anos foram alvo de algum tipo de violência nas escolas nos últimos anos, segundo dados da Unesco. Mas os alunos não são as únicas vítimas: uma pesquisa da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), divulgada em fevereiro deste ano, revelou que 87% dos profissionais da educação já sofreram alguma agressão ou sabem de alguma ocorrência dentro da escola. Cerca de 29% dos professores se afastaram temporariamente do trabalho ou abandonaram a profissão motivados pela violência dos alunos.

A professora E. C. leciona em uma escola pública de São Caetano há seis anos e diz que a agressividade dos alunos se tornou constante. “Falta educação, que muitas vezes eles não recebem em casa”. A docente afirma que é difícil atribuir o mau comportamento a um aspecto específico. “Às vezes são problemas familiares, o uso de drogas, a fácil irritabilidade, entre outros que não somos capazes de identificar”.

E. C. já assistiu a desavenças entre estudantes dentro da sala de aula. “As brigas estão sempre presentes entre eles, muitas vezes sem um motivo certo ou importante. Já ocorreu em minha sala, quando dois alunos brincavam de ofender a mãe um do outro. De repente, um deles se irritou e partiu para a agressão física”, revela a professora. Ela acredita que a solução para situações como essa seja uma mudança nas regras dentro das escolas. “Uma direção sempre firme em suas atitudes, e algumas mudanças no regime. Mudanças que nos dêem uma maior abertura em punições, pois nada acontece com os alunos. Sendo assim, eles continuam a agir da mesma maneira, causando transtornos a si mesmos e ao docente”, explica E.C.

“Existe falta de limites na educação dos filhos, no que diz respeito às classes média e alta. Nas classes menos favorecidas, temos o descaso da nossa política social”, diz a psicóloga Rosana Poiani, de São Bernardo. A especialista acredita que as mudanças nos relacionamentos entre pais e filhos são responsáveis pela má-educação dos jovens. “Antigamente os pais eram tradicionalistas, autoritários ao extremo, mas educavam e não se arrependiam de nada do que faziam. Com o passar dos anos, o diálogo e as negociações passaram a fazer parte do processo educativo. Mas, com tudo isso, veio também o ‘psicologismo da educação’. A mídia, em geral, tratou de desinformar os pais, colocando que tudo traumatiza, que não pode isso ou não pode aquilo. Enfim, a educação se perdeu”.

Dentro desse raciocínio, os pais têm parte da culpa no desrespeito aos professores e colegas. “Eles já não sabem o que é certo ou errado e permitem atitudes sem saber se é adequado ou não. Ou, o que é pior, são permissivos demais por acharem que os filhos tem direitos, como por exemplo, responder ao professor que quem paga seu salário é ele. De onde ouviram isso se não dos pais?”, questiona a psicóloga.

Bullying - Segundo Rosana, outro fator muito importante são os preconceitos desenvolvidos dentro dos ambientes familiares. “O ser humano ainda não aprendeu a conviver com as diferenças. Encontramos a falta de valores morais, afetivos e de caráter em qualquer tipo de classe social”.

A universitária Marcela de Oliveira Seme, 24, moradora de Mauá, foi testemunha da perseguição de colegas contra um garoto na época em que cursava a 8ª série do ensino fundamental, em 1996. “Ele era um pouco ‘bobão’ e ingênuo, e todos zoavam com ele. Faziam brincadeiras de mau-gosto, como jogá-lo dentro do latão de lixo”. Marcela ainda se recorda de uma ocasião em especial: “Uma menina disse para esse garoto que iria ensiná-lo a beijar, mas antes ele teria que treinar com um poste. Ele aceitou e beijou o poste, mas não a menina”.

Para a estudante, o garoto não tinha percepção do que faziam com ele. “Ele mesmo não encarava isso como uma coisa ‘ruim’, porque continuava convivendo com os outros alunos normalmente”, afirma. Marcela soube que o ex-colega entrou numa faculdade e continua sendo alvo de chacotas. “Até hoje zoam com ele. Fizeram uma comunidade no orkut (site de relacionamentos) para tirar sarro”, diz.

O ex-colega de Marcela é uma vítima do chamado bullying. O termo passou a ser usado depois da publicação de uma pesquisa sobre vítimas de violência escolar realizada pelo professor Dan Olweus da Universidade de Bergen, na Noruega, nos anos 1970. A palavra bullying é inglesa, sem tradução para o português, e está relacionada a termos como: zoar, apelidar com finalidade pejorativa, humilhar, perseguir, machucar, ferir, ofender. “Enfim, é tudo que devemos aprender a não fazer com ninguém e para ninguém”, afirma Rosana Poiani. A psicóloga aponta as características e o perfil de quem pratica o bullying. “Com certeza uma pessoa perversa, com uma personalidade má e uma visão deturpada do convívio com os outros, assim como com sua afetividade”, esclarece.

O bullying pode provocar marcas profundas para quem é vítima. A auxiliar administrativa D.M., 19, de São Bernardo, revela que faz terapia para superar problemas psicológicos. “Quando eu tinha 14 anos, minhas colegas criticavam muito minhas roupas e meu cabelo. Eu era chamada de ‘Betty, a Feia’ (numa referência à novela de mesmo nome, na qual a personagem-título era humilhada por sua aparência) e isso me machucava demais”. D.M. conta que ainda tem muitos problemas de auto-estima em decorrência do bullying. “Na época, eu me sentia um lixo e tinha vontade de morrer. Até hoje tenho depressão e vivo obcecada com minha aparência”.

“É fundamental que qualquer pessoa que viva sob coerção de qualquer espécie procure um tratamento psicológico, pois toda essa situação constitui uma angústia muito grande e abala a auto-estima. Muitas vezes, a vítima se isola e sente medo, e temos casos que levam até ao suicídio”, afirma a psicóloga Rosana Poiani.

Obesidade: 30% das crianças e adolescentes brasileiros estão acima do peso

Além de prejudicar a saúde, a obesidade pode provocar graves problemas psicológicos, como baixa auto-estima e isolamento.

ADRIANA FELIX
e KAREM MOGNON

Vergonha do próprio corpo, baixa auto-estima, aumento do risco de doenças cardiovasculares. Estes são apenas alguns dos problemas relacionados à obesidade na adolescência. De acordo com a Abeso (Associação Brasileira de Estudos sobre a Obesidade e Síndrome Metabólica), 30% das crianças e adolescentes brasileiros são obesos. Entre as principais causas, estão o sedentarismo e os maus hábitos alimentares.

Para a psicóloga Liliana Lopes de Santo André, as cobranças sociais e imposições da vida moderna expõem o adolescente obeso a uma ampla gama de conflitos psicológicos. “O impacto psicológico que a obesidade causa na adolescência pode trazer perturbações que afetarão estes indivíduos por um longo período de suas vidas”, analisa.

Um desses impactos, por exemplo, é a baixa auto-estima, que pode ter conseqüências graves. “A baixa auto-estima pode provocar dificuldades em cultivar ou fazer amizades, desânimo para sair, problemas escolares e falta de confiança em si. Pode gerar ainda um sentimento de que ninguém gosta ou que não poderá gostar dele (a), e por conta disto, dificuldade para namorar ou paquerar”, afirma a também psicóloga de São Caetano, Paula Biscaro de Oliveira.

Segundo ela, os pais devem ficar atentos e verificar se o filho não está se isolando. “É preciso calma e diálogo nessa hora. Ficar só rotulando ou apontando os defeitos e dificuldades só irá reforçar a situação. Se o adolescente estiver apresentando sintomas de depressão ou engordando demais, é obrigação dos pais levarem o filho para fazer tratamento com um profissional adequado”, alerta.

O estudante B. S., 16, morador de São Caetano, não revela o próprio peso por vergonha, mas admite sofrer discriminação por ser obeso. “Meus colegas de escola tiram sarro de mim constantemente, me chamando de ‘Jô (Soares)’, ‘Faustão’, ‘Balão mágico’. Além disso, as pessoas ficam olhando para mim na rua”.

Apesar de já ter problemas de saúde como colesterol alto, início de diabetes, triglicérides alterada, falta de ar e dificuldades de locomoção, o estudante diz que não faz regime. “No café da manhã, como três pãezinhos e dois copos de leite com café. No almoço, um prato cheio de arroz, feijão e alguma carne, que às vezes repito. No lanche da tarde, costumo comer salgados, porque minha mãe faz. No jantar, massas e salgados. Só penso em comida e em assistir televisão”, confessa.

B.S. não gosta de salada e consome muito refrigerante, mesmo sabendo que precisa cuidar melhor da saúde. “Sei que preciso mudar os hábitos de alimentação, fechar a boca e fazer uma dieta. Também devo praticar exercícios, e, principalmente, parar de fumar”.

Mudança de hábito - A nutricionista Edna Sampaio de São Bernardo define a alimentação dos adolescentes brasileiros como ‘ruim’. “Há muito consumo de gordura trans e saturada, o que pode provocar doenças cardiovasculares e inflamatórias. Por outro lado, a ingestão de poucos vegetais e frutas acarreta um baixo consumo de fibras”, diz.

Márcia Soares, também nutricionista, concorda: “A alimentação está cada vez mais precária. Crianças e adolescentes querem alimentos de fácil preparo, moles, para não terem que mastigar muito. Infelizmente, os pais não têm mais tempo para se dedicar aos filhos. Nos últimos dez anos, tudo isso ocasionou o excesso de alimentação fast food, uso de alimentos industrializados e conseqüente acúmulo de gorduras, sal e carboidratos”. Ela sugere a mudança dos hábitos alimentares das famílias para garantir a melhoria da saúde de crianças e adolescentes.

“Deve-se cortar o consumo de gorduras trans e hidrogenada (usada em sorvetes industrializados cremosos, biscoitos e pastelarias, entre outros). Também é preciso evitar a ingestão freqüente de gordura saturada, assim como o consumo de açúcares simples, como o encontrado no mel, melado, doces, balas e guloseimas, e dar preferência aos carboidratos complexos, como pães, raízes e arroz”, recomenda Edna Sampaio. Outra dica da nutricionista é ingerir no mínimo cinco porções de frutas e vegetais por dia e dar preferência a alimentos integrais.

Em alguns casos, a cirurgia para redução de estômago, inclusive para adolescentes, é uma alternativa para o tratamento da obesidade. Entretanto, o acompanhamento psicológico é indispensável. “Já atendi pessoas que optaram pela cirurgia de redução do estômago, e a partir disso, mudaram suas vidas para muito melhor. Puderam ser mais autoconfiantes e melhorar a auto-estima. Mas essas pessoas passaram por processo terapêutico comigo por alguns meses antes da cirurgia, ou no mínimo fizeram sessões para terem o laudo psicológico antes de realizar a cirurgia. Sempre digo aos clientes que eles vão operar o estômago, e não a cabeça”, explica a psicóloga Paula Biscaro.

Já Liliana Lopes destaca a importância de seguir um tratamento psicológico associado à atividade física e acompanhamento nutricional. “A união de todos esses meios é bastante eficaz e pode reduzir ou eliminar a obesidade e, consequentemente, os conflitos psicológicos causados por ela”, afirma.

Uma questão de infidelidade

Segundo especialista, as principais conseqüências da traição são a quebra do vínculo de confiança entre o casal e a desestruturação na referência de vida, especialmente quando a relação tem vários anos.

ADRIANA FELIX
e KAREM MOGNON

Ele passa a maior parte do tempo livre em reuniões com os amigos, dizendo que vai trabalhar até mais tarde. Quando chega a fatura do cartão de crédito, trata de pegá-la rapidinho para esconder gastos com telefonemas do celular ou de restaurantes, motéis e presentes. O celular toca e ele se assusta, ou tenta ficar sozinho para atendê-lo. Atitudes como essas podem representar sinais de infidelidade, de acordo com a psicóloga Olga Tessari, de São Paulo.

Terapeuta de casais, entre outras especialidades, Olga cita outros comportamentos suspeitos: “O (a) parceiro (a) mostra mais interesse em comprar roupas novas, ou há momentos em que se arruma melhor ao sair de casa para fazer coisas banais, como ‘tomar um ar’; a pessoa tem se irritado mais ou fica estressada com facilidade; o apetite sexual mudou: está sempre ocupada ou cansada demais para o parceiro, ou então, de uma hora para outra, quer fazer sexo a todo instante, com medo de que ele perceba que existe outra pessoa”.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em outubro de 2007 indicou que 34% dos homens e 8% das mulheres já traíram o parceiro atual. Foram ouvidas 2.093 pessoas em 211 municípios brasileiros. Outro estudo, realizado entre 2002 e 2003 pelo Projeto Sexualidade (Pro-Sex), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, revelou números ainda maiores: a infidelidade masculina foi admitida por 50,6% dos entrevistados, e a feminina, por 25,7%.

“No caso dos homens, há uma questão cultural muito grande. Além do mito de que o homem precisa ter mais experiências ou tem mais desejo sexual, ele se sente bem-avaliado pelos amigos ao contar casos extraconjugais. Em relação às mulheres, ocorreu uma mudança: elas estão traindo mais. Muitas vezes, a infidelidade acontece quando a mulher está insatisfeita afetiva e sexualmente. Então, elas buscam experiências com outros parceiros”, diz a psicóloga Arlete Gavranic, coordenadora dos cursos de pós-graduação em educação e terapia sexual do ISEXP (Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática) de São Caetano.

A especialista ressalta que, em muitos casos, a mulher é motivada por um sentimento de vingança. “De acordo com a pesquisa do Hospital das Clínicas, cerca de metade das entrevistadas trai para se vingar da infidelidade do parceiro. Muitas vezes, isso serve para a mulher se auto-afirmar e reconstruir a auto-estima”. Segundo Arlete, no entanto, a educação recebida ainda faz com que grande parte delas se sinta culpada.

“Ambos traem, mas a mulher oculta mais do que o homem porque a sociedade ainda não aceita tão bem a traição feminina quanto a masculina. Ela é quem perdoa mais facilmente, adotando a postura da ‘mãe compreensiva’, depois de muito sofrimento ao fazer-se de vítima. O homem tem mais dificuldade de perdoar porque se sente na obrigação de tomar uma atitude perante a sociedade, não necessariamente a melhor para si mesmo”, explica Olga Tessari.

“Homens e mulheres encaram a infidelidade de forma diferente: eles do ponto de vista da sexualidade, elas, da forma afetiva. Para o brasileiro, que ainda é machista, é muito difícil saber que sua mulher fez sexo com outro homem que não ele. Em geral, eles partem para a separação, embora existam até os que aceitem melhor. Mas, normalmente, os homens fazem o possível para fingir que não sabem. Caso contrário, terão que tomar uma atitude perante a sociedade”, opina Olga.

Para Arlete Gavranic, as principais conseqüências da traição são a quebra do vínculo de confiança entre o casal e a desestruturação na referência de vida, especialmente quando a relação tem vários anos. “Mexe com a auto-estima, principalmente das mulheres. Ela vai pensar coisas do tipo: ‘é porque estou feia, porque envelheci ou engordei?’. As comparações com o que o outro foi buscar fora do relacionamento são inevitáveis”, afirma a especialista.“Vamos encontrar mulheres jovens, bonitas e ótimas profissionais que, ao sofrerem uma traição, esquecem de quem são. As mulheres ainda são educadas dentro do mito do amor romântico.

Muitas só dão significado a suas vidas quando encontram uma pessoa. Ao serem traídas, perdem a própria referência. Essas pessoas precisam de ajuda terapêutica para reaprenderem a olhar para si mesmas e a se enxergarem como mulheres”, recomenda Arlete.

Traídos e traidores - Para Olga Tessari, os motivos para uma traição são os mais diversos: “Rotina, falta de atenção, questões culturais, a busca pelo novo, carências, insatisfação, vingança. Também ocorre quando um dos dois não vê satisfeitos os seus desejos ou suas expectativas com o (a) parceiro (a), ou quando não há mais diálogo entre o casal. Existe ainda uma procura pela sensação de perigo ou mesmo de poder”.

“Traí porque não gostava deles. Na época, achava que tanto fazia estar com aquelas pessoas ou não, e era muito gostosa a aventura”, assume a autônoma M.A.B., 33, moradora de Santo André. Ela traiu alguns namorados e o ex-noivo há 12 anos. “Algumas pessoas souberam por mim mesma. A única pessoa que eu não contei foi para meu noivo. Mas foi pior, porque eu terminei a relação e ele acabou descobrindo na mesma semana, quando me viu com o cara com quem eu estava traindo”,revela.

M.A.B. se arrepende apenas de ter sido infiel com o ex-noivo. “Com algumas pessoas eu faria tudo novamente, porque não deveria nem ter começado o namoro. No caso do meu ex-noivo, me arrependi muito, porque ele era um cara legal, gostava de mim e me dava valor. Acabei trocando-o por alguém que não valeu a pena. Se o encontrasse novamente, pediria desculpas. Ele não me perdoou, mas se eu pudesse teria reatado, porque era uma pessoa muito especial e tenho quase certeza que se estivesse com ele, estaria vivendo bem”. Porém, a autônoma diz que provavelmente não conseguiria perdoar se fosse vítima: “Depende. Se não gostasse dele, seria uma desculpa para terminar. Mas também, se eu gostasse, ficaria muito brava e talvez não o perdoasse”.

O consultor de empresas M.T.A., 27, de São Bernardo, viveu o outro lado da situação. Ele não tem certeza absoluta se foi traído pela ex-namorada, mas a suposta infidelidade quase acabou com uma amizade de infância. “Estava curtindo ficar com ela, e parecia que era correspondido. Nós saíamos com meus amigos e íamos para vários lugares, como bares, casamentos e festas. Depois de um tempo, ela me contou que estava a fim do meu melhor amigo. Não sei dizer se houve traição de fato, mas me senti muito mal, pois estava realmente gostando dela. É difícil ouvir de uma namorada que ela está gostando de outro. Pior ainda quando se trata de seu melhor amigo”, desabafa.

M.T.A. se sentiu duplamente traído. “Poderia ter sido mais fácil aceitar a infidelidade dela se não fosse com meu amigo”. Segundo o consultor, a amizade ficou abalada. “Contei o que minha ex havia me dito e conversamos sobre a situação. Parecia que tudo estava resolvido, mas depois ele veio me perguntar se haveria problema em sair com ela. Disse que não, mas no fundo fiquei bastante chateado. Se estivesse no lugar dele, não faria isso. É aquele negócio, o que eu não quero pra mim, não quero para o outro”.

Apesar de tudo, a história teve um final feliz. “Depois de uma semana, meu amigo me ligou muito desconfiado, me convidando para tomar cerveja. Aceitei, e quando nos encontramos, ele achou até que eu iria bater nele, mas tivemos uma boa conversa e tudo ficou resolvido. Nós tínhamos uma amizade desde crianças, que não poderia ser perdida por uma mulher que não ficou nem comigo, nem com ele”, diz M.T.A. Sete anos depois, o consultor afirma ter superado o assunto. Atualmente, ele namora outra pessoa, com quem planeja se casar. “Acredito que o que aconteceu foi um caso à parte e, infelizmente, pode acontecer com qualquer pessoa. Acho que um relacionamento sem confiança não dá certo”.

Esquecendo a traição - “Depende de cada casal. Muitos buscam um reencontro na terapia, que não necessariamente irá resgatar a relação, mas pode ajudar os dois a uma separação sem mágoas e agressões”, explica Arlete Gavranic. Mas a terapeuta diz que é possível continuar juntos: “O parceiro infiel deve ter consciência de que a desconfiança e o ciúme são preços que terá que pagar pelo deslize. A pessoa tende a ter um controle maior sobre o parceiro que traiu.

Quem foi vítima carrega a sensação de que deixou a infidelidade acontecer. Mas, se tiver vontade de resgatar esse vínculo, deve se comprometer com isso”.
A psicóloga Olga Tessari aconselha a pessoa traída a avaliar seu comportamento e verificar se de alguma forma colaborou para que a situação ocorresse. “Se ela quer manter o relacionamento, deve entender que tem uma parcela de culpa e não apenas se fazer de vítima. Caso escolha continuar e não consiga perdoar, ela precisa de acompanhamento psicológico para isso, pois suas atitudes podem contribuir para a separação. Ela deve recomeçar sem ficar remoendo a traição. Em outras palavras, virar a página junto com o traidor. A partir do momento em que ambos desejam prosseguir juntos, devem colocar um ponto final nessa história e enterrá-la definitivamente”.

O perigo mora ao lado

Dados do PAVAS (Programa de Atenção à Violência e Abuso Sexual) de São Bernardo revelam que 47% dos casos ocorrem com adolescentes entre 14 e 20 anos. Muitas vezes, o agressor está dentro de casa.

ADRIANA FELIX
KAREM MOGNON

Sofrimento das vítimas e silêncio das famílias. Duas reações que geralmente estão relacionadas ao abuso sexual de menores. Em São Bernardo, adolescentes entre 14 e 20 anos representam 47% das vítimas do município, mas crianças também sofrem com a violência. Em 37% dos casos, não são registrados boletins de ocorrência. O mais grave é que, muitas vezes, a agressão ocorre dentro do lugar que deveria oferecer mais segurança: o próprio lar.

Várias entidades auxiliam as vítimas na região do ABC. Segundo Kelly Rodrigues Melatti, assistente de coordenação técnica do Crami (Centro Regional de Atenção aos Maus-tratos na Infância) do ABCD, o local atende menores que sofreram abuso familiar. “O Crami é uma ONG (Organização não-governamental) que atua nos municípios de Santo André, São Bernardo e Diadema, e oferece atendimento psico-social a crianças, adolescentes e famílias que vivenciam situações de violência doméstica. Conta com uma equipe multidisciplinar, que busca compreender as diversas facetas da situação e oferecer ações de proteção, em intercâmbio com outros órgãos, além de escuta profissional, capaz de proporcionar possibilidades de entendimento das experiências de violência vividas”.

Para a assistente do Crami, o abuso sexual traz várias conseqüências para as vítimas e necessita de tratamento. “Cada pessoa reage à violência de uma forma particular, levando em consideração diversos aspectos. As conseqüências emocionais mais observadas em adolescentes são baixa auto-estima, indícios de depressão, distorção da auto-imagem, dificuldades em estabelecer vínculos afetivos e de confiança. O atendimento psicológico é importante, pois pode promover reflexões e trabalhar como possíveis traumas que afetem a vida dos envolvidos”.

“O abuso sexual é uma forma grave de violência, e os efeitos psicológicos mais freqüentes são: baixa capacidade de confiança em outras pessoas, isolamento, distúrbios do sono, sintomas psicossomáticos ou depressão, explosões de raiva em situações diversas, queda no rendimento escolar e problemas de comportamento, surgimento de comportamentos considerados promíscuos, entre outros. Isolados, os sintomas alertam que algo não está bem com pessoa, mas, quando somados, podem evidenciar que ela está sendo vítima de algum tipo de violência sexual”, afirma a psicóloga Ana Cristina Caldeira, é especialista no tema.

“As medidas de prevenção são importantes, mas a luta é da sociedade civil, das vítimas, das famílias, do poder público, da saúde, do Ministério Público e do Judiciário”, declarou Vera Lucia Acayaba Toledo, promotora pública da Infância e da Juventude de São Bernardo, durante um seminário que discutiu o tema na cidade, uma vez que o dia 18 de maio foi escolhido como Dia Nacional de Combate e Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Atendimento às vítimas - No Crami, todas as pessoas que estejam de algum modo ligadas às situações de abuso são orientadas, inclusive o autor do ato violento. “Entendemos que é necessário que todos reflitam sobre suas práticas, a fim de construir laços afetivos mais sólidos e sem a presença da violência”, afirma Kelly Melatti. “Devem receber atenção de forma multidisciplinar, pois se trata de uma situação complexa e com diversas ramificações. O importante é que a pessoa que sofreu o abuso e todos os envolvidos tenham um espaço de escuta profissional, para que possam refletir sobre suas vivências e trabalhá-las em seu cotidiano”.

Já Carolina do Rocio Klomfahs, diretora técnica da Fundação Criança, diz que o agressor também deve receber tratamento: “É importante tratar não apenas a criança ou adolescente, mas também a família e o próprio agressor, depois que este receber a punição adequada. Não adianta a vítima receber o tratamento e voltar a conviver com o abusador se este também não for orientado”. A entidade, juntamente com o Pavas (Programa de Atenção à Violência e Abuso Sexual) e o Crami forma uma rede de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de abuso e exploração sexual. Assim como o Crami, a Fundação Criança também atende os casos de abuso sexual que ocorrem dentro da família. A diretora da entidade conta que, em 2004, foi realizada uma pesquisa de rua sobre os perfis de menores que foram abusados e dos agressores. Os resultados revelaram que cerca de 81% das vítimas são meninas, 23% delas com idades entre 10 e 12 anos, e outros 24% entre 13 e 15 anos. Em 22% dos casos, o abusador é o próprio pai, enquanto o padrasto é responsável por 17% das ocorrências. Na maioria dos casos (29%), o agressor encontra-se na faixa etária de 19 a 30 anos.

Entre as diversas histórias que já acompanhou, Carolina do Rocio cita a de duas irmãs, uma de 10 anos, com leve deficiência mental, e a outra de apenas oito anos: “O pai ‘comercializava’ as filhas para pagar dívidas com alguns comerciantes da vizinhança. A mãe das meninas tinha deficiência auditiva, e o marido era alcoólatra, formando o quadro de uma família com transtornos mentais. O pai foi denunciado por vizinhos e perdeu a guarda das crianças, que foram encaminhadas para tratamento. Fizemos um trabalho no sentido de tentar recuperar a infância delas. Os pais não estão presos, mas ainda serão julgados. A mãe sofre muito e de certa forma também pode ser considerada uma vítima, pois devido à sua deficiência, não conseguia se rebelar contra o marido”.

De acordo com a diretora da Fundação Criança, existem dois tipos de abuso sexual. “O crônico é caracterizado pelo silêncio da família, e só é descoberto quando a criança é mais velha ou quando explode um conflito familiar. Muitas vezes, a agressão familiar só é revelada ao longo de um tratamento psicológico. Em cerca de metade dos casos, é mais fácil ser descoberto por outras pessoas do que pela mãe, que não percebe o que ocorre dentro da própria família. Só quando a criança pede socorro”. No abuso agudo, geralmente a criança ou adolescente apresenta ferimentos ou machucados, e é socorrida pelo Caism (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher), que atende vítimas de violência extra-familiares, ou pelo Crami. As vítimas fazem o exame de corpo delito e depois são encaminhadas para tratamento psico-social gratuito, que é acompanhado pela Fundação Criança.

A psicóloga Ana Cristina Caldeira ressalta que é necessário garantir condições de segurança e proteção aos menores, para que não fiquem expostos ao risco de novas ocorrências. “É importante oferecer um ambiente onde a vítima se sinta respeitada e protegida de ameaças, críticas e julgamentos alheios. Ao mesmo tempo, ela deve fazer um bom acompanhamento médico, para verificar as condições de saúde, e ter encaminhamento para tratamento psicológico. Este último contribuirá para que se desenvolva integralmente, promovendo condições para a superação de conseqüências negativas causadas pela violência a que foi exposta”.

Silêncio das Famílias - Nos casos de violência sexual intra-familiar, a vítima pode apresentar uma variedade de sentimentos. Além do medo do agressor e da sensação de culpa e vergonha, existe o receio de que o mesmo receba uma punição, ou de que ninguém acredite nela. “As crianças e adolescentes dificilmente vão em busca de uma denúncia sozinhas. Para isso, necessitam de um adulto que possa oferecer proteção. Mas, por diversos motivos, a vítima pode não contar o que está acontecendo. Ou ainda, ao notar a descrença do adulto, manifesta o fenômeno da retratação e diz que mentiu, ao se perceber como causadora de um conflito na família”, diz Kelly Melatti.

Muitas ocorrências não são denunciadas. “Quando o agressor é o provedor da casa, muitas mães não denunciam porque vão perder a fonte de renda. Em outros, a criança não consegue entender que é vítima de abuso, por ser muito pequena. Ou ainda, há o medo de represálias por parte da pessoa que cometeu a violência”, diz Ana Carolina do Rocio. “São muitos os fatores, desde a falta de recursos e informações sobre as formas e locais adequados para buscar ajuda, até o preconceito e discriminação da sociedade, inclusive da própria família”, explica a psicóloga Ana Cristina Caldeira, que cita ainda outras razões:

“Ameaças, feitas pelo agressor contra a própria vítima ou pessoas que ela gosta, como a mãe ou um irmão mais novo, que ela imagina ‘proteger’ com o seu ‘sacrifício’. Pode haver também uma relação de ambigüidade, onde sedução e violência se misturam, causando culpa, vergonha e ‘destruição’ da auto-imagem da vítima. Ela começa a acreditar que deve suportar o sofrimento ao qual está submetida. E, em muitos casos, os outros integrantes da família também tendem a não acreditar, ou até mesmo a responsabilizá-la pelo abuso”.

Kelly Melatti alerta sobre a importância de levar os casos ao conhecimento das autoridades: “Observamos a existência do complô do silêncio, em que o abuso torna-se um ‘segredo familiar’. É necessário que um terceiro desempenhe o papel de denunciar, de modo que a situação seja explicitada e interditada. Se houver necessidade, a saúde da criança deve ter prioridade absoluta, e a mesma deve ser encaminhada a um hospital. No mais, a denúncia é o primeiro passo, além de ser obrigatória por lei, de acordo com o Artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Todas as pessoas que possuem contato com a criança e que suspeitam ou tem confirmada a situação, devem procurar os órgãos competentes, como conselhos tutelares, delegacias, hospitais, etc”.

A assistente do CRAMI acredita que algumas vítimas possam voltar a ter uma vida normal. “Cada pessoa tem um modo particular de entender as experiências vividas. No entanto, quando há a proteção da criança ou adolescente e a família recebe uma atenção especializada para refletir sobre suas práticas e construir vínculos mais fortalecidos, a pessoa poderá enxergar para além daquela situação”. A psicóloga Ana Cristina Caldeira concorda: “É possível superar o trauma e, a partir daí, retomar os caminhos que recuperam o amor próprio, elevam a qualidade de vida e proporcionam condições de estabelecer relacionamentos saudáveis. Muitas vezes, nos surpreendemos com a determinação que as pessoas demonstram para se recuperar das marcas deixadas pela vivência de uma situação traumática”.

Serviço: Onde denunciar
Crami São Bernardo - 4123-1751. Conselhos Tutelares de São Bernardo - 4122-3306 e 4122-1417. Guarda Civil Municipal - 4121-1033. Delegacia de Defesa da Mulher de São Bernardo - 4368-2032 e 4368-9980. Hospital Municipal Universitário (HMU) - 4365-1480. Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) - 4332-9111. Atendimento 24 horas: 0800 7737-888 (municipal) e 100 (disque-denúncia nacional)

Transtorno Bipolar: muito além da mudança brusca de humor

Foto: Neniza via Photopin cc

Muitas pessoas sofrem com mudanças repentinas de humor e comportamento, prejudicando o convívio social, familiar e, principalmente, pessoal, já que os portadores do transtorno bipolar não conseguem entender a si mesmos.

ADRIANA FELIX
KAREM MOGNON

Instabilidade. Esta é a palavra mais freqüente na vida de E.V., moradora de São Bernardo “Eu nunca sei como vou estar amanhã, nem como vou relacionar as coisas. Posso tentar me acalmar e contar até dez, mas basta que uma coisa mínima não dê certo que eu perco o controle da situação. Sofremos por nada e rimos por nada também”. E.V. tem 20 anos, é professora e sofre de transtorno bipolar (TB). Ela descobriu a doença há cinco anos, durante uma crise em que quase cortou os pulsos.

Durante muito tempo, o Transtorno Bipolar era conhecido pelo nome de psicose maníaco-depressiva, uma doença psiquiátrica caracterizada por alternância de fases de depressão e de hiperexcitabilidade. De acordo com a psicóloga Stella Maris Colonato, de Santo André, o transtorno bipolar é caracterizado por dois ou mais episódios, nos quais o humor e o nível de atividade do sujeito estão profundamente perturbados. “Esse distúrbio consiste, em algumas ocasiões, na elevação do humor e no aumento da energia e da atividade, e, em outras, no rebaixamento do humor e na redução da energia e da atividade”.

Essas mudanças de humor e atitudes são freqüentes para E.V., que tem sua vida social abalada. "Fica tremendamente difícil se relacionar com as pessoas. Perdi amigos por minhas mudanças súbitas de humor. E na hora de ir a festas, é uma tortura, porque é algo muito complicado começar a conversar com alguém ou conhecer gente nova. Parece que temos uma aura que afasta todo mundo”.

Assim como ela, E.S., 25, terapeuta alternativa de São Paulo, descobriu a doença depois de uma crise forte de depressão. Ela também sofreu e sofre com essas mudanças bruscas de comportamento, contudo, isso acontece há muito tempo. “Desde criança apresentei problemas de comportamento na escola e no dia-a-dia. Nunca tive amigos que durassem mais que um mês, sentia agressividade e oscilava muito de humor. Passei toda a adolescência com depressão e era uma pessoa extremamente sensível. Quando cheguei aos 19 anos, tive euforia, gastei muito dinheiro, sujei meu nome e até roubava dinheiro dos meus pais para ter como suprir a minha compulsão. Larguei a faculdade pela metade, comecei outra e nem fui assistir às aulas, esqueci de trancar...”.

O transtorno bipolar atinge pessoas de todas as idades. Segundo Stella Colonato, tanto crianças como adolescentes podem vir a apresentar a doença, mas o distúrbio tende a afetar crianças de pais que já são portadores. No entanto, a identificação é difícil. “Pode ser difícil diferenciar o transtorno bipolar em crianças e adolescentes de outros problemas que ocorrem nessas faixas etárias. Por exemplo, embora caracterizem o transtorno bipolar, a irritabilidade e a agressividade também podem ser indícios de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtorno de conduta, de oposição e desafio ou outros tipos de transtornos mentais mais comuns em adultos, como a depressão e a esquizofrenia. O abuso de drogas também pode causar esses sintomas”, diz a psicóloga.

Ainda de acordo com Stela, a solução para esse problema está em um diagnóstico apropriado. “Crianças ou adolescentes com sintomas emocionais e comportamentais devem ser cuidadosamente avaliadas por um profissional de saúde mental. Qualquer paciente que tenha tendências suicidas, fale em suicídio ou tente o suicídio deve ser levada a sério e receber ajuda imediata de um especialista”.

Os danos na vida social vão além da falta de amigos, pois a família está diretamente ligada às vítimas e acaba participando de todo esse processo. Foi o que aconteceu com a família de E.S. “Quando estou em crise eu os machuco muito, eles sofrem comigo. Meu pai sofre muito de me ver assim, às vezes diz que é tudo culpa dele, meu irmão queria poder ajudar. Depois de muita terapia da família inteira, conseguimos nos entender”. Apesar de todos os problemas, ela afirma que eles nunca a abandonaram e, quando possível, a acompanham aos médicos e sempre estão envolvidos em tentar ajudar com o máximo que podem.

A psicóloga Stela ressalta a importância da família no tratamento. “As famílias devem fazer parte do tratamento quando possível, pois se observa maior dificuldade de melhora quando se trata a criança ou adolescente isoladamente”.
O número de mortes de pacientes portadores de TB é bastante expressivo, principalmente entre jovens, tendo como principal causa o suicídio. Segundo a Associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ABTB), até 50% dos portadores tentam o suicídio ao menos uma vez em suas vidas e 15% efetivamente o cometem.

E.S., além dos problemas causados pela bipolaridade, se envolveu em um relacionamento complicado, no qual agravou ainda mais sua doença, chegando ao ponto de tentar se suicidar. “Arrumei um relacionamento muito doentio, no qual fiquei três anos com essa pessoa, tentei suicídio com remédios, sai de casa, depois voltei e quebrava o que via pela frente. Tive anorexia e aconteceu uma série de coisas que acrescentaram muitos traumas. Quando terminou, eu fiquei numa depressão profunda e rapidamente cheguei a pesar 39 quilos”.

O tratamento - Assim como várias doenças, o transtorno bipolar tem tratamento, apesar de não ter cura. A psicóloga Stella Colonato afirma que a terapia pode levar a pessoa a ter uma vida normal ou, pelo menos, muito próxima do normal. “Isso geralmente só depende da adesão do paciente e das mudanças no estilo de vida que ele tiver de fazer”, explica.

E.S. faz todos os tipos de terapia alternativa para ajudar a minimizar ainda mais o problema, além de tomar o remédio que o médico define ser o melhor. “Eu já tomei quase tudo que existe de fármaco, mas meu corpo tem uma certa resistência em aceitar. Hoje, tomo medicamentos e participo de estudos dentro de um hospital de psiquiatria”. E.V. tomava Ácido Valproico e Rivotril. Fez algumas sessões de terapia, mas não gostou e parou. “Agora vou recomeçar o tratamento, já que li muito sobre o assunto e estou mais informada do que tempos atrás”.

Segundo o site da ABTB, o tratamento adequado do transtorno bipolar reduz a incapacitação e a mortalidade dos portadores. Em linhas gerais, inclui necessariamente a prescrição de um ou mais estabilizadores do humor em associação (carbonato de lítio, ácido valpróico/valproato de sódio/divalproato de sódio, lamotrigina, carbamazepina, oxcarbazepina). A associação de antidepressivos (de diferentes classes) e de antipsicóticos (em especial os de segunda geração como risperidona, olanzapina, quetiapina, ziprasidona, aripiprazol) pode ser necessária para o controle de episódios de depressão e de mania.